terça-feira, 29 de maio de 2012

O ANDAIME

O tempo que eu hei sonhado
Quantos anos foi de vida!
Ah, quanto do meu passado
Foi só a vida mentida
De um futuro imaginado!

Aqui à beira do rio
Sossego sem ter razão.
Este seu correr vazio
Figura, anônimo e frio,
A vida vivida em vão.

A 'sp'rança que pouco alcança!
Que desejo vale o ensejo?
E uma bola de criança
Sobre mais que minha 's'prança,
Rola mais que o meu desejo.

Ondas do rio, tão leves
Que não sois ondas sequer,
Horas, dias, anos, breves
Passam - verduras ou neves
Que o mesmo sol faz morrer.

Gastei tudo que não tinha.
Sou mais velho do que sou.
A ilusão, que me mantinha,
Só no palco era rainha:
Despiu-se, e o reino acabou.

Leve som das águas lentas,
Gulosas da margem ida,
Que lembranças sonolentas
De esperanças nevoentas!
Que sonhos o sonho e a vida!

Que fiz de mim? Encontrei-me
Quando estava já perdido.
Impaciente deixei-me
Como a um louco que teime
No que lhe foi desmentido.

Som morto das águas mansas
Que correm por ter que ser,
Leva não só lembranças -
Mortas, porque hão de morrer.

Sou já o morto futuro.
Só um sonho me liga a mim -
O sonho atrasado e obscuro
Do que eu devera ser - muro
Do meu deserto jardim.

Ondas passadas, levai-me
Para o alvido do mar!
Ao que não serei legai-me,
Que cerquei com um andaime
A casa por fabricar.



 (Fernando Pessoa)

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Flocos, massagem e regressão


     Ela precisava relaxar. Abriu o jornal à procura de alguma informação útil sobre terapia. Que idéia estapafúrdia! Jornais só falam de tragédias! Impossível encontrar o que queria, naqueles pedaços de papel. Levantou-se da cadeira e foi ao computador. Digitou as seguintes palavras num site de busca: "terapia + relaxamento". Havia de tudo: acupuntura, ioga, massagens, regressão a vidas passadas. O que escolher, meu Deus? Ela precisava relaxar. Esta era a única certeza que tinha.
     Saiu de casa disposta a tentar uma daquelas alternativas lá. Vai que alguma dê certo? Melhor é arriscar! 
     No ponto de ônibus, havia um senhor muito estranho. Olhava o tempo todo para a direção dela, mas só olhava para baixo, com ar de felicidade. Só espero que este sujeito não pegue o mesmo ônibus que eu, pensou ela.
     Surge a condução e ambos entram juntos. Ela primeiro - o sujeito não era um troglodita. O ônibus está vazio. Com milhares de lugares para ele se sentar, ele resolve se sentar ao lado dela. Em momento algum levantou os olhos.
     Ela começa a ficar com medo daquele sujeito. Pensou em lhe jogar uma indireta, para que ele visse que ela já havia notado algo de estranho nele. Quem sabe ele se envergonhasse e mudasse de assento? Ela estava com medo. Com aquele calor infernal, o ideal seria que ele se sentasse em outro lugar. Foi então que ela falou-lhe:
    - Está quente hoje, não?
    - Está quente sim.
    - Nessas horas, nada como um leque para aliviar o calor.
    - Ou um lenço umedecido. Tenho alguns. A senhorita quer um?
    - Não, obrigada.
    - Tem certeza?
    Era inútil. Ela tentava conseguir dizer-lhe que, com aquele calor, o ideal seria ele se sentar em outro canto. Mas seria algo muito grosseiro. Talvez ela só estivesse cismada com aquele sujeito estranho que, apesar de estranho, havia sido gentil com ela desde que entraram naquele ônibus.
    - Com licença, eu vou descer.
    Ele se levantou, para que ela passasse.
    Descem juntos.
    Ela caminha depressa.
    O sujeito atrás.
    Ela olha para o papel com o endereço escolhido. Dizia: terapia de vidas passadas. Ela estava em frente ao edifício. Quando sobe as escadas, vem o senhor atrás. Mas não é possível que esse sujeito vá para o mesmo local que eu! Entram no mesmo elevador, descem no mesmo lugar, entram na mesma sala.
    - Olá, o Dr. Fritz ainda não chegou. Está preso num engarrafamento.
    Não havia outro jeito. O melhor era esperar. Se o médico não chegasse em trinta minutos, ela iria embora.
   O senhor levanta os olhos para ela e sorri. Dirige-se à secretária e pergunta quais os serviços que eram oferecidos ali. Soube então que se tratava de "regressão a vidas passadas". Ele dá uma gargalhada e diz "Pronto! Vai começar a regressão!" "Meu Deus, esse sujeito é completamente maluco!", ela pensou. O que ele estava fazendo ali, afinal?
     Trinta minutos se passaram e nada do Dr. Fritz.
     Ela então resolve ir embora.
     Ele também.
     Antes de abrir a porta, já desconfiada, ela lhe pergunta:
     - Meu senhor, tenho notado que vem me seguindo desde o ponto de ônibus. Afinal, o que o senhor quer de mim?
     - Os seus pés.
     - Como?
     - Os seus pés. Quero massagear os seus pés.
     - Massagear os meus pés?
     - Exatamente! É uma coisa profundamente relaxante. Diminui o estresse consideravelmente.
     - Ai, o senhor jura?
     - Pode acreditar!
     Ali mesmo, antes de abrir a porta para sair daquele consultório, ela tira os sapatos e se senta em uma das cadeiras. Com bastante cuidado, coloca então seus pés sobre as mãos daquele maluco. Ele estava certo. Aquilo era mesmo muito relaxante!
     Mais calma, ela lhe sorri agradecida:
     - É realmente muito bom! Como posso fazer para lhe agradecer?
     - Ah, é muito simples! Vamos tomar um sorvete de flocos. Está fazendo muito calor!





terça-feira, 22 de maio de 2012

Insónia

Não durmo, nem espero dormir. 
Nem na morte espero dormir. 
Espera-me uma insónia da largura dos astros, 
E um bocejo inútil do comprimento do mundo. 

Não durmo; não posso ler quando acordo de noite, 
Não posso escrever quando acordo de noite, 
Não posso pensar quando acordo de noite — 
Meu Deus, nem posso sonhar quando acordo de noite! 

Ah, o ópio de ser outra pessoa qualquer! 

Não durmo, jazo, cadáver acordado, sentindo, 
E o meu sentimento é um pensamento vazio. 
Passam por mim, transtornadas, coisas que me sucederam 
— Todas aquelas de que me arrependo e me culpo; 
Passam por mim, transtornadas, coisas que me não sucederam 
— Todas aquelas de que me arrependo e me culpo; 
Passam por mim, transtornadas, coisas que não são nada, 
E até dessas me arrependo, me culpo, e não durmo. 

Não tenho força para ter energia para acender um cigarro. 
Fito a parede fronteira do quarto como se fosse o universo. 
Lá fora há o silêncio dessa coisa toda. 
Um grande silêncio apavorante noutra ocasião qualquer, 
Noutra ocasião qualquer em que eu pudesse sentir. 

Estou escrevendo versos realmente simpáticos — 
Versos a dizer que não tenho nada que dizer, 
Versos a teimar em dizer isso, 
Versos, versos, versos, versos, versos... 
Tantos versos... 
E a verdade toda, e a vida toda fora deles e de mim! 

Tenho sono, não durmo, sinto e não sei em que sentir. 
Sou uma sensação sem pessoa correspondente, 
Uma abstracção de autoconsciência sem de quê, 
Salvo o necessário para sentir consciência, 
Salvo — sei lá salvo o quê... 

Não durmo. Não durmo. Não durmo. 
Que grande sono em toda a cabeça e em cima dos olhos e na alma! 
Que grande sono em tudo excepto no poder dormir! 

Ó madrugada, tardas tanto... Vem... 
Vem, inutilmente, 
Trazer-me outro dia igual a este, a ser seguido por outra noite igual a esta... 
Vem trazer-me a alegria dessa esperança triste, 
Porque sempre és alegre, e sempre trazes esperança, 
Segundo a velha literatura das sensações. 

Vem, traz a esperança, vem, traz a esperança. 
O meu cansaço entra pelo colchão dentro. 
Doem-me as costas de não estar deitado de lado. 
Se estivesse deitado de lado doíam-me as costas de estar deitado de lado. 
Vem, madrugada, chega! 

Que horas são? Não sei. 
Não tenho energia para estender uma mão para o relógio, 
Não tenho energia para nada, para mais nada... 
Só para estes versos, escritos no dia seguinte. 
Sim, escritos no dia seguinte. 

Todos os versos são sempre escritos no dia seguinte. 
Noite absoluta, sossego absoluto, lá fora. 
Paz em toda a Natureza. 
A Humanidade repousa e esquece as suas amarguras. 
Exactamente. 
A Humanidade esquece as suas alegrias e amarguras. 
Costuma dizer-se isto. 
A Humanidade esquece, sim, a Humanidade esquece, 
Mas mesmo acordada a Humanidade esquece. 
Exactamente. Mas não durmo. 

(Álvaro de Campos, in "Poemas" )









quarta-feira, 25 de abril de 2012

Nus no mar morto


Folha em branco
que o vento carrega
voando pra longe
pra se desenhar


Folha amarela
marcada de letras
de um caule tão denso
no peito a jorrar


Fagulha cortante
a vida errante
como o diamante
não quer se encontrar


Falharam Seus filhos
as folhas em filas
são filhas de cinzas
jogadas no mar.


(Raquel S.)



sexta-feira, 6 de abril de 2012

He wishes for the cloths of heaven

Had I the heavens’ embroidered cloths,
Enwrought with golden and silver light,
The blue and the dim and the dark cloths
Of night and light and the half light,
I would spread the cloths under your feet:
But I, being poor, have only my dreams;
I have spread my dreams under your feet;
Tread softly because you tread on my dreams.


(William Butler Yeats)



quarta-feira, 4 de abril de 2012

Dizes-me

Dizes-me: tu és mais alguma cousa 
Que uma pedra ou uma planta. 
Dizes-me: sentes, pensas e sabes 
Que pensas e sentes. 


Então as pedras escrevem versos? 
Então as plantas têm idéias sobre o mundo?


Sim: há diferença. 
Mas não é a diferença que encontras; 
Porque o ter consciência não me obriga a ter teorias sobre as cousas: 
Só me obriga a ser consciente.


Se sou mais que uma pedra ou uma planta? 
Não sei. Sou diferente. 
Não sei o que é mais ou menos. 
Ter consciência é mais que ter cor? 
Pode ser e pode não ser. 
Sei que é diferente apenas. 
Ninguém pode provar que é mais que só diferente.


Sei que a pedra é a real, e que a planta existe. 
Sei isto porque elas existem. 
Sei isto porque os meus sentidos mo mostram. 
Sei que sou real também. 
Sei isto porque os meus sentidos mo mostram, 
Embora com menos clareza que me mostram a pedra e a planta. 
Não sei mais nada.


Sim, escrevo versos, e a pedra não escreve versos. 
Sim, faço idéias sobre o mundo, e a planta nenhumas. 
Mas é que as pedras não são poetas, são pedras; 
E as plantas são plantas só, e não pensadores. 
Tanto posso dizer que sou superior a elas por isto, 
Como que sou inferior. 


Mas não digo isso: digo da pedra, "é uma pedra", 
Digo da planta, "é uma planta", 
Digo de mim, "sou eu". 
E não digo mais nada. 
Que mais há a dizer? 


(Alberto Caeiro)

Rotuladores...

Lamento que muitas pessoas confundam imparcialidade com hipocrisia (lamento por elas, é claro). Você, para ser justo, tem de ser necessariamente imparcial. Deste modo, é sempre possível defender os direitos mesmo daqueles que vivem nos atirando suas pedras de ovos ocos. O nome disso é imparcialidade. Tá lá no dicionário! É só ler. Ser imparcial é indispensável quando se quer ser justo. Só uma pessoa imparcial, por exemplo, é capaz de reconhecer as qualidades de quem a detesta. Sempre reconheço as qualidades dos outros, sejam eles justos ou não comigo, amigos ou não, admiradores ou não. Sou capaz de defender os direitos dos que me apunhalam, se eu julgar que estejam sendo injustiçados. Reconheço as qualidades, mas admiração eu realmente só tenho por aqueles que compreendem bem o que eu digo e o que eu sinto. E como eu não conheço ninguém, além de mim mesma (e me conheço muito bem), não sou inimiga de ninguém. E acho a inimizade de quem quer que seja por mim uma grande tolice, uma imensa perda de tempo para quem se disponha a sê-lo, porque ninguém nesse mundo é capaz de me fazer mal a não ser eu mesma. Por isso é que meus inimigos não passam de moinhos de vento mesmo. Os únicos inimigos do homem residem nos seus pensamentos e em nenhum outro lugar! Presunção demais querer achar que se é capaz de conhecer os outros! Não conhecemos ninguém e nem temos condições para isso, pois só vivemos em nós mesmos, não conhecemos o pensamento de ninguém. Então, ao invés de se perder tempo querendo conhecer as pessoas e definí-las (perda de tempo justificada pela impossibilidade de êxito nessa investida), que se tente conhecer a si mesmo! Isso sim é possível e bem mais divertido! Nada melhor do que a companhia de si mesmo! Qualquer pessoa que tente me rotular ou mesmo rotular quem quer que seja, estará perdendo tempo e errando grotescamente os seus palpites. Conheça a si mesmo(a) e verá o quanto suas palavras costumam ser vazias de sentido quando se referem a outrem.



domingo, 1 de abril de 2012

Não me ames

Não me ames.
Não quero o amor de ninguém.
Não há nenhum brinde ou recompensa que me façam brilhar os olhos.


Não vês que melhor é amar sem querer ser amado,
que nisto reside a liberdade dos corações humanos?
Que ser livre é só ter a dar, e não ficar à espera das frutas da estação?


Pois bem.
Acontece que jamais sofro.
Não há sofrimento algum para aqueles
que nada desejam dos outros.


E, muito embora a alegria consista no amar,
o amor é autosuficiente!
Alimenta-se apenas de si mesmo.
É clorofila fosforescente.


Só me interessam os sentimentos que eu carrego,
não aqueles que são carregados pelos outros.


Se por acaso me tens amor, então guarde-o contigo,
que em nada me interessa sabê-lo.
Não quero ser carregada por mares que desconheço.
E nem quero conhecer outros mares!


Que é só no meu mar tempestuoso
é que eu encontro
a doce serenidade 
de um delicado iceberg.


(Raquel S.)